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Simoniaca Heresis

Simoniaca Heresis

Simoniaca Heresis

Por Jean Leclercq

Traduzido por W. L. North do original em francês em Studi Gregoriani I (Roma, 1947)

Introdução: São Gregório VII e seus contemporâneos costumavam usar a expressão simoniaca heresis [heresia simonica ou a heresia da simonia]. Em nosso tempo, “heresia” é definida como uma doutrina que se opõe à verdade revelada: é, portanto, um julgamento errôneo do intelecto. Mas a simonia é uma ação, uma prática: diz respeito à categoria do agir, não à categoria do saber. Alguns também são tentados a concluir que a simonia não é uma heresia. Eles são igualmente constrangidos a se submeter a uma interpretação que permite rejeitar a maneira de falar de Gregório VII e de muitos outros. De acordo com essa hipótese, em vez de admitir que papas, teólogos e canonistas não sabiam o que era heresia nem o que era simonia, seríamos reduzidos a pensar que, sob sua pena, a palavra heresis, quando aplicada à simonia, é apenas um metáfora vaga, equivalente a pestis, morbus ou pravitas, que os próprios escritores medievais associam ao epíteto simoniacus, embora com muito menos frequência. Se alguém deseja apreciar o valor da expressão simoniaca heresis, e se alguém deseja avaliar sua conformidade com a tradição, é importante refazer os principais passos de sua história.

No topo dos catálogos mais antigos de hereges aparece Simão, o Mago, que o relato dos Atos dos Apóstolos descreve. É o caso, por exemplo, do Libellus adversus omnes hereses de Pseudo-Tertuliano (Panfleto contra todos os hereses), que remonta provavelmente à primeira metade do século III; neste texto, em que os erros de Simão são enumerados, não há alusão ao fato de que ele desejava obter o Espírito Santo por um pagamento em prata. Ao contrário, é feita menção a uma linhagem de apóstolos "que diziam as mesmas coisas que ele". Simon é, portanto, considerado o fundador de uma verdadeira seita. Algum tempo depois, São Jerônimo também disse que “[Simão] criou uma heresia,” já que [heresia] naquela época era geralmente usado como sinônimo de “seita”. Já entre 383 e 391, Filastrio de Brescia, inspirado nos mais antigos catálogos [de heresias], colocou Simão e seus discípulos no início de sua lista de hereges após a Paixão de Cristo. Ele também não fala do desejo de Simão de comprar o Espírito Santo. Mas esta última queixa será a queixa com que, por volta de 428, Santo Agostinho censura em primeiro lugar Simão.

Com Gregório, o Grande (papa, 590-604), a expressão simoniaca heresis torna-se uma frase freqüentemente usada. São Gregório a emprega em uma de suas homilias sobre um texto em que expressa toda a essência de seu pensamento sobre o assunto. Aqueles que impõem o Espírito Santo apenas com a condição de receber dinheiro são tão culpados quanto os vendedores que Jesus expulsou do Templo. Eles são a ruína do sacerdócio, e foi por isso que o Redentor destruiu suas tábuas de contagem: “daí resulta que os santos cânones condenam a heresia simoniacal”. São Gregório fala aqui de simonia sem aludir a Simon. Em outra homilia, ele evoca o relato dos Atos dos Apóstolos e o coloca em diálogo com a mesma cena dos Evangelhos, e então se levanta contra a simonia, mas não a nomeia nem a caracteriza como herética. Nestes dois textos, ele não acusa Simão de nenhum dos erros doutrinários que os antigos catálogos lhe atribuem: acusa-o apenas de ter desejado colocar à venda o dom de Deus.


Assista o vídeo: Marcion of Sinope and Marcionism (Janeiro 2022).