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Milagres de transformação corporal, ou como São Francisco recebeu os estigmas

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Milagres de transformação corporal, ou como São Francisco recebeu os estigmas

Por Arnold I. Davidson

Inquérito Crítico, Vol. 35 (2009)

Introdução: Nenhuma discussão breve sobre estigmas pode esperar levar em conta as muitas, e às vezes conflitantes, dimensões desse fenômeno religioso historicamente datável e relativamente recente. Um título mais apropriado poderia ter sido “Milagre, Misticismo, Doença: A Iconografia e Filosofia dos Estigmas”. Uma discussão aprofundada dos estigmas deve considerá-los nos contextos da história do milagroso, da história do misticismo e da história das explicações psiquiátricas dos estigmas. Neste ensaio, no entanto, vou me concentrar quase exclusivamente nas interpretações dos estigmas como milagrosos, por razões que espero que logo se tornem claras. Além disso, restringirei minha discussão à estigmatização de São Francisco, uma limitação cujo motivo se tornará evidente à medida que desenvolvo meu argumento. Gostaria de começar com algumas breves observações sobre pontos de vista que não considerarei aqui.

Do ponto de vista da história do misticismo, os estigmas de Francisco representam o início de uma nova forma de misticismo, em que a experiência mística não é mais meramente espiritual, mas é acompanhada por fenômenos e transformações que são físicas. Estigmas, levitação, bilocação, jejum e transverberação são eventos físicos que se tornaram associados à experiência mística. Esses fenômenos contrastam com as formas mais antigas de misticismo não expressas no corpo. Por exemplo, São Bernardo de Clairvaux, no Sermão 74 sobre O Cântico dos Cânticos, alude a esta forma mais antiga quando escreve:

Então quando o Noivo, a Palavra, veio a mim, ele nunca fez saber a sua vinda por quaisquer sinais, nem pela vista, nem pelo som, nem pelo toque. Na renovação e reconstrução do espírito de minha mente, isto é, de meu ser mais íntimo, percebi a excelência de sua beleza gloriosa.

Como muitos historiadores têm sustentado, a introdução desta nova forma de misticismo deve estar ligada a uma mudança de atitude e a uma nova devoção pela humanidade de Cristo, sua Encarnação, sua Paixão e, mais geralmente, a existência corporal que o caracteriza como humano. No entanto, devemos evitar interpretar este novo tipo de experiência mística simplesmente como a consequência de uma nova elaboração teórica sobre a humanidade de Cristo, porque reflete uma forma diferente de viver e experimentar a humanidade de Cristo; é uma experiência que tem fundamentos teóricos, mas não se reduz a eles. Como Pierre Hadot argumentou, é necessário distinguir entre o discurso teológico racional sobre o transcendente e a experiência espiritual do transcendente. O êxtase místico não deve ser confundido com argumentação e discurso teológicos; os métodos e procedimentos da filosofia e da teologia estavam tradicionalmente a serviço de um novo modo de vida que exigia uma transformação do próprio ser.


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